
Há em Fractária uma biblioteca antiga — a Biblioteca Fratura — cujo nome já anuncia o que ela coleciona.
Há em Fractária uma biblioteca antiga — a Biblioteca Fratura — cujo nome já anuncia o que ela coleciona. Prateleiras altas como muralhas guardam volumes que sobreviveram à queda da décima terceira dinastia, manuscritos resgatados dos vilarejos arrasados pelos Espinhos, registros das Donzelas do Destino anteriores à Era do Outono. É um arquivo da derrota — e, também, das poucas vitórias que mereceram tinta.
Entre a imensidão de corpos em uma guerra e a covardia que assola o lado perdedor, existe a neutralidade — uma neutralidade onde o luxo apazigua os corações consumistas. Quem entra aqui buscando saber costuma deixar cair, no mesmo gesto, a máscara que usava lá fora. O silêncio é tão denso que ouvir os próprios passos passa a ser uma intrusão. O bibliotecário, atrás do balcão de madeira escura, observa cada visitante com a indiferença educada de quem já viu muitos pesquisadores se tornarem fantasmas das próprias páginas.
Dizem que os livros mais perigosos não estão à vista — guardados sob chave em prateleiras cujo paradeiro só o bibliotecário conhece. Quem procura conhecimento aqui costuma encontrar — e quem encontra costuma desejar, depois, não ter procurado...
Ecos canônicos. Foi entre estas prateleiras que Beatrice D. Soving — a Âncora cega coberta por armaduras douradas — chegou ao lado de Fenrir Snowstorm em busca de conhecimento sobre seu próprio passado, deslizando os dedos pelos livros como se as letras das capas fossem suficientes para que a cega lesse seu conteúdo. O bibliotecário Aabram Marrubre os recebeu com um sorriso sádico — "Boas vistas..." — anunciando, sem palavras, que algumas perguntas custam mais do que o pesquisador imagina.