
Nas Florestas de Fractária — cinturão verde-cinza que circunda o reino — há um lugar onde a água desistiu de ser apenas água.
Nas Florestas de Fractária — cinturão verde-cinza que circunda o reino — há um lugar onde a água desistiu de ser apenas água. Conta-se que houve uma guerra cuja conta de mortos não cabia nas valas, e os corpos foram empilhados rio acima até que a corrente vermilhona descesse a cachoeira como um véu carmesim. Quando o último soldado caiu, o rio já não era rio: era memória líquida.
A queda d'água ainda corre, mas a coloração nunca voltou. Vermilhão sobre o musgo, vermilhão sobre as pedras, vermilhão sobre as raízes que descem para beber. Os comerciantes da Aldeia Lacônica desviam de lá. Os caçadores fingem que o caminho é mais curto pelo outro lado. Apenas os mais teimosos — os que precisam beber porque já não há para onde ir — se aproximam do paredão e ouvem o que o som-d'água tem a dizer.
Há quem afirme que, dentro do tom pútrido, um pedaço de água ainda é puro... que o Acampamento Dracônico mantém esse pedaço escondido por décadas, e que essa é a razão de seus moradores não morrerem de velhice. Os crentes peregrinam. Os céticos seguem o curso. A maioria simplesmente se perde no meio do caminho.
A cachoeira não chora. Apenas continua descendo.
Ecos canônicos. Foi aqui que Sistus Myddral — credora vendada da Coroa Vermelha — se transformou na Lâmina do Abrolho, espada que Sirius Myddral manipularia telepaticamente pelo resto da era, atando a venda ao cabo como juramento. Foi aqui que Sistus articulou a Doutrina das Vendas: "os olhos são a janela da alma... a gente não deve fixar os olhos no que é sujo, ou nas nossas dores, já que nós vamos para onde olhamos".