
Em Nahrram — o reino que se tornou silêncio depois que a névoa cinzenta desceu — há uma extensão de trigais que parecem nunca acabar.
Em Nahrram — o reino que se tornou silêncio depois que a névoa cinzenta desceu — há uma extensão de trigais que parecem nunca acabar. O vento esvoaça as espigas até o tornozelo, e o sol do Outono, raro como ele é, alcança aqui um amarelo opaco que parece pesar no peito. É um vazio com nome — Campos Sussurrantes — e o nome se justifica pelo que se ouve quando se para de andar.
Não é o vento. São murmúrios baixos, sem palavras, vindos do solo, como se a colheita lembrasse de algo que nenhum vivo lembraria. Diz-se que o trigo aqui foi plantado em tempos antes da queda do reino — antes do Massacre Invernal, antes do retorno dos Inflamados à terra perdida. Que cada espiga é uma boca calada. Que o lugar foi escolhido pelas Donzelas como repouso entre destinos, lugar para se viver os últimos respiros antes da tempestade.
É um cemitério sem covas. Aqui não se enterra ninguém — o trigo é o sudário. Os comerciantes evitam atravessá-lo, preferindo rodear pela muralha. Apenas os solitários e os despossuídos sentam-se nas pedras planas que rompem a planície, para acompanhar o pôr do sol, trançar os cabelos uns dos outros, e dizer coisas que jamais teriam coragem de dizer em outro canto de Gloomhaven.
Ecos canônicos. Foi aqui, dois dias antes do festival de Blossomwood que culminaria em Besta-Desmos, que Beatrice D. Soving — a Âncora vendada, irmã do credor — e Fenrir Snowstorm — o Nascido do Inverno, escudeiro fiel da Velha Guarda — selaram o pacto duplo: ele beijou simbolicamente a testa dela (a maldição da raça não permitia o toque), declarou que nem mesmo o medo da alter-ego Dante o afastaria — Quero mais é que ela se foda — e ela confessou, pela primeira vez no corpus, acho que ela te amaria como eu te amo se ao menos te conhecesse. A tarde terminou em duelo amigo entre escudo e espada, dois dias antes do confronto real em que o braço do invernal seria arrancado.