
Nas lendas mais antigas de Ghanliew — a cidade dourada dos Inflamados —, conta-se que Garador, o Deus da Ordem, desceu pessoalmente para se despedir uma última vez de Ourabrasa.
Nas lendas mais antigas de Ghanliew — a cidade dourada dos Inflamados —, conta-se que Garador, o Deus da Ordem, desceu pessoalmente para se despedir uma última vez de Ourabrasa. O relacionamento havia se encerrado, mas o afeto entre eles perdurou; e, como último presente pelo que cultivaram juntos, ele lhe concedeu um jardim — flores mais belas do que qualquer outra, com pétalas capazes de restaurar corpos espirituais adoecidos.
Com o passar dos séculos, o jardim transbordou. Tornou-se uma praça, um mar de cores que parece desafiar a monocromia do Outono. Cada passo dado neste lugar sagrado é como sentir o profundo carinho que foi depositado em cada pétala... mas uma melancolia também paira no ar, um eco da tristeza que acompanhou a despedida divina. As flores cantam um conforto, e cantam, ao mesmo tempo, uma ausência.
É aqui que os recém-chegados a Ghanliew costumam ser interceptados — pelas Esfinges, pelas fofocas, pelos olhares que medem se o estrangeiro será digno do ouro ou apenas mais um corpo descartável. A beleza do lugar é real. A vigilância também.
Ecos canônicos. Foi nesta praça que Freya Helium Del Ordus — a Esfinge ruiva e cega, vinda da fazenda nortenha após décadas de isolamento — encontrou pela primeira vez Kytzia Mesbah, a Luz do Amanhã, em meio a uma trupe ordenada de seguidoras. “Até parece que nosso Amado Deus deseja sinalizar algo, como um milagre,” dizia a Donzela. O destino que se anunciou ali era de tutela e cárcere.