
Anshatar é a Deusa da Primavera dos Galhos Altos, a filha mais velha e mais bela de Lesmos, e a primeira de todos os Filhos do Rei a tomar uma iniciativa quando a Árvore Espiritual e a Miasma fizeram as pazes.
Anshatar é a Deusa da Primavera dos Galhos Altos, a filha mais velha e mais bela de Lesmos, e a primeira de todos os Filhos do Rei a tomar uma iniciativa quando a Árvore Espiritual e a Miasma fizeram as pazes. No pacto que regeria o mundo por quatro estações e várias estrelas, foram os filhos de Lesmos que dividiram entre si as responsabilidades do equilíbrio, e Anshatar reivindicou a estação mais importante, a Primavera. Não por orgulho, mas porque era a única capaz de carregá-la: seu coração tinha mais bondade do que vazio e sua mente, mais sabedoria do que desespero. Por anos cumpriu o trabalho com perfeição. É a ela que os fiéis chamam de Mãe Suprema, e o título é literal: os primavérios são, todos, seus filhos.
A maternidade dela é também a sua tragédia. Quando as mortes do Mundo Externo adoeceram a Árvore, Anshatar foi a primeira a se mobilizar, enviando seus queridos filhos para todos os galhos, onde lutaram e morreram bravamente, um após o outro, e foi tudo em vão. Numa tentativa desesperada de salvá-los, ordenou que se erguesse uma fortaleza colossal no galho exato onde o pai havia tombado: Fractaria, o bastião indestrutível, capaz de manter a doença afastada enquanto durasse o poder dela. Mas a conta de mortos não parava de subir, e Anshatar não conseguiu se perdoar. Era como se o passado sombrio finalmente batesse à porta para cobrá-la pelo que fizera ao pai. Assombrada pela certeza de que merecia punição, de que era uma péssima mãe, de que era ela a razão da condenação da Árvore, a Deusa sucumbiu ao vazio: deixou que um vão se abrisse em seu ventre e que a morte penetrasse no seu âmago. Para que os filhos não a vissem assim, entregou Fractaria a uma família que um dia formaria a dinastia de Blossomwood, e mergulhou na primeira de suas comas espirituais.
Foi a irmã mais nova quem a trouxe de volta. Soria a tocou, expulsou a morte de seu corpo e fechou o vão em seu ventre, e Anshatar despertou num mundo já desfigurado: Setíferus expulso de casa, a família entregue a uma briga sem freios, a própria prole atirada numa guerra contra os filhos do irmão exilado. Ela voltou a lutar. Materializou-se em incontáveis frentes de batalha para inspirar os soldados, e gastou-se até a última gota de poder. Quando não conseguiu mais oferecer auxílio e caiu na sua primeira coma, Fractaria viveu os piores seis meses de sua história, até que a nova herdeira de Blossomwood repeliu os espinhosos, tomou o título de Rainha Primaveria e fundou, na ausência da Deusa, a facção da Resistência. À nova Rainha, Arietta, a Decepada, Anshatar concedeu poder imenso e o cargo de Donzela do Destino da Prole da Primavera: a sua voz e o seu estandarte no galho, para quando a divindade não pudesse estar presente.
Mas a vitória que se anunciava, a doença contida pela primeira vez em quase um século, graças à muralha de Garador e aos Radiantes que Anshatar ajudou a forjar, foi desfeita por uma só pessoa. Ela surgiu: Astella, a meia-irmã indesejada, a bastarda de Lesmos, portadora de segredos profanos que língua nenhuma conseguiria pronunciar sem tombar. Astella entregou parte do que sabia aos exércitos dos filhos de Setíferus, e estes se reergueram da humilhação, trazendo terror absoluto para dentro das paredes infinitas de Garador: onde, agora se via com clareza, eram os filhos de Anshatar e dos irmãos os que estavam presos, trancados junto com os espinhosos. Um a um, os batalhões caíram diante da estratégia da bastarda.
Então a Mãe Suprema fez a escolha que a marcaria para sempre com a mesma alcunha que ela tanto julgara no irmão. No dia da queda dos Rasoir, Anshatar abandonou a causa de Solarium, de Freja e da falecida Soria: ordenou que os Exércitos Primavérios se recolhessem a Fractaria e cessassem todo apoio às Alianças Luminosas. Que a Resistência fosse independente; que cuidasse apenas dos seus; que criasse a própria economia e seus próprios acordos, ainda que com antigos inimigos; que aceitasse que a Guerra das Estações havia acabado e que dali em diante era só uma questão de sobreviver. Por isso, todos os Seres Espirituais Luminosos, exceto os que vieram dela, passaram a chamá-la de desertora. Ela, que tanto condenara Setíferus, herdou o mesmo nome.
E, no entanto, a deserção de Anshatar foi a escolha de uma mãe que preferiu salvar os filhos a alimentar o orgulho luminoso, jamais um ato de covardia. Junto da ordem de recuo, ela fez uma promessa que fez Fractaria comemorar por semanas. Jurou, pessoalmente, a cada primavério, que um dia libertaria todos do confinamento terrível de Garador, e que, enquanto isso não acontecesse, apareceria no centro de Fractaria a cada sétima lua para consolar seus filhos. Cumpriu. Coordenou, com outros povos da Árvore, investida após investida contra a muralha: a Investida de Trilhadonna, a Batalha dos Vaskarosk, o Cerco dos Aliskar. Todas falharam. Mas, por causa delas, a chama da esperança no peito dos primavérios jamais se apagou. Não importa quantas vezes falhasse. Ela iria repetir até conseguir. É essa a teimosia divina de Anshatar: a primeira a se mobilizar, a primeira a desertar, e a única que prometeu voltar todas as sétimas luas até o fim do mundo.
"Primavério, quando estiver sozinho no bosque escuro dos espinhos, ou no vale mais gélido que Hudantel pode oferecer, deixe que seus cabelos castanhos se tornem alaranjados e mostre o seu valor, pois eu serei contigo."