
Garador é o Deus da Ordem, e a ordem, na sua mão, foi sempre uma muralha.
Garador é o Deus da Ordem, e a ordem, na sua mão, foi sempre uma muralha. De todos os Filhos do Rei que devoraram Lesmos para se tornarem os Deuses Luminosos, é ele o que mais se parece com a divindade que os mortais querem que os deuses sejam: o construtor, o legislador, o que ergue paredes contra o caos. Garador nunca mentiu, dizem os fiéis, e talvez seja verdade, o que torna tudo o que ele fez mais difícil de perdoar. Veio, segundo as escrituras, para restaurar tudo o que Lesmos havia destruído. Terminou construindo a maior prisão que a Árvore Espiritual já conheceu.
A sua obra-prima foi um gesto de afeto. Quando os outros irmãos divinos começaram a considerar um expurgo total, derrubar da Árvore o galho inteiro tomado pela Doença das Estações e pelos filhos de Setíferus para que a corrupção não passasse, foi Garador quem se sentiu mal com a ideia. Por apreço à irmã Anshatar, cuja Fractaria seria varrida junto com o resto, ele escolheu outro caminho: em vez de cortar o galho, desceria sobre ele uma muralha gigantesca, cobrindo-o por inteiro, impedindo que o caos se alastrasse aos galhos ainda saudáveis. As escrituras sagradas afirmam que foi misericórdia. Mas há quem acredite que o Deus da Ordem agiu por desespero e por falta de confiança nos filhos dos próprios irmãos, e a história, com o tempo, deu razão a esses. A terra murada passou a chamar-se Gloomhaven, o Refúgio Sombrio, e dentro dela ficaram presos não só os espinhosos, mas os filhos de Anshatar e de todos os Deuses, condenados a disputar o pouco território que sobrou.
Dessa intimidade com Anshatar nasceu também o seu povo. Em segredo, os dois uniram as energias para forjar guerreiros revolucionários que não apenas combateriam os infectados, mas guardariam a passagem: nada entraria, nada sairia sem permissão. Eram os Radiantes: o dourado das armaduras simbolizava o orgulho, e as lâminas de ouro indestrutíveis, a fidelidade. Por quase um século, deram certo. Pela primeira vez a doença foi contida, e a vitória pareceu, enfim, estar ao alcance. Garador era então o ouro da Árvore, a Ordem com rosto, a promessa de que o desastre tinha limite.
E então ele foi embora. Quando a Árvore, esgotada, adentrou a Era de Ansenfall, os Anos no Outono, Anshatar despiu a armadura celestial, ajoelhou-se diante do trono da Janela Estelar e suplicou clemência aos Estelares e à Luz, aqueles mesmos que um dia haviam querido destruir a Miasma, o lar deles. Para Garador, pedir ajuda aos antigos algozes era o maior sinal de fraqueza que ele e os irmãos poderiam demonstrar. Quando o Crepúsculo Estelar inundou o Palácio do Galho Celestial em resposta à prece da irmã, ele sentiu-se envergonhado, e não lutou para aceitar. Tomado por orgulho ferido e desespero, virou as costas para o povo, para Anshatar e para os irmãos, e escolheu o exílio e a solidão em vez da humilhação de implorar. Saiu, e levou consigo a própria Ordem.
O preço quem pagou foi quem mais o servia. Quando Garador abandonou a Árvore, as muralhas douradas viraram prata. Os Radiantes mais próximos do Lago Sombrio foram instantaneamente afligidos pela doença do desespero, a prata, e a maioria se perdeu nela; o ouro das armaduras, das almas e das espadas desbotou num cinza-prateado e morto, um tom sem vida e sem esperança. Eles não morreram: ficaram. Tornaram-se os Prateados, espectros do que um dia foram, com a consciência reduzida a um propósito vazio e deturpado: impedir que qualquer um entre ou saia. A muralha que antes brilhava com o esplendor da proteção divina virou o lembrete sinistro de uma traição. Devoção que sobreviveu ao próprio deus: vítimas que viraram carcereiros, mantidas de pé por um deus que foi embora.
E, no entanto, ele os comanda. A deserção e o domínio são, em Garador, o mesmo gesto. Ele retorna à muralha vestido de armadura prateada, e os que ali apodrecem o invocam pelo nome que ele mereceu, o Deus Prateado. "Quando pretende ajudar, Deus Prateado?", perguntam, e a pergunta nunca tem resposta. Ele deixou a prata tomar o seu povo e agora reina sobre aquilo em que o seu povo se transformou: a Muralha Prateada viva, a hoste que sela o pesadelo de Gloomhaven e sustenta o domo de horror sobre o Reino Sombrio. Guarda uma reserva de elite, os prateados mais profanos, que só acorda quando a muralha é de fato ameaçada. Conheceu a primeira derrota de toda a sua existência quando os Trilhadonnos, a coragem encarnada, romperam a primeira camada e, por um instante, era como se Soria estivesse presente, como se a irmã que ele deixou morrer voltasse a viver no rombo da sua parede. Então ele acordou os mais profanos, e a segunda onda destroçou os invasores.
Resta a marca pessoal, a que nenhuma escritura suaviza: Garador detesta Astella profundamente, a filha bastarda do pai que ele ajudou a devorar. Seja qual for o nó que liga o Deus da Ordem ao Rei devorado e à sua herdeira banida, esse ódio é o sintoma de superfície de algo que o corpus não nomeia, e prefere não nomear. Garador é o deus que veio restaurar e ficou aprisionando, o que forjou o ouro e legou a prata, o que nunca mentiu e abandonou todos. A Ordem, afinal, era só uma muralha. E uma muralha, quando o seu deus a abandona, não protege mais ninguém: apenas prende.