
Antes de existirem Deuses, existia um Rei.
Antes de existirem Deuses, existia um Rei. Lesmos foi o último soberano de Brightfort, a capital dos Transmutalmas, aqueles seres primevos que habitavam a Árvore Espiritual e cuja função era gerar a energia que empurrava as raízes cada vez mais fundo na Miasma. Dele descende tudo o que hoje se ajoelha e tudo o que hoje sangra: pois os seis que se autonomearam Deuses Luminosos não nasceram divinos. Eles eram, antes de qualquer outra coisa, os Filhos do Rei.
A glória de Lesmos foi também a sua ruína. Ele empunhava as Umbracronos, um poder que cobiçava sem medida, e quanto mais o segurava, mais queria. Foi essa fome que assustou os próprios filhos. Garador, Anshatar, Soria, Setíferus, Freja e Solarium temiam o que aconteceria se Lesmos obtivesse mais Umbracronos; temiam que, na sua cruzada por absorvê-las, o pai terminasse por destruir a Árvore inteira, o lar de todos eles. E o medo, quando é grande o bastante, vira faca.
Conspiraram. Mataram o pai e cumpriram sobre o cadáver um ritual profano: alimentaram-se dele, dividindo-o em partes iguais para que a potência das Umbracronos fosse herdada por cada um na mesma medida. Foi um parricídio que era também uma comunhão: comeram o pai para se tornarem deuses. E funcionou: a potência foi tamanha que os filhos não conseguiram mais sustentar um corpo espiritual no mundo tridimensional, e ascenderam, instáveis e luminosos, ao plano celestial. Da carne de Lesmos nasceu o panteão. Eles passaram a chamar-se os Deuses Luminosos, e juraram erguer um mundo espiritual perfeito que um dia seria capaz de restaurar tudo o que Lesmos havia destruído, uma promessa que carrega, no avesso, a confissão de quem o destruiu de fato.
Mas o pai morto não se calou. O corpo de Lesmos foi lançado ao Lago Sombrio, e o sangue dele, o amargo sangue de Lesmos, impregnado de ódio, emanado da serpente em sua forma mais pura e cruel, não se dissolveu em silêncio. Dele brotaram seres espirituais gerados pela sua fúria, filhos da Grande Chama do Faminto, jurados pela chama ardente e devoradora a trazer o verdadeiro horror aos assassinos de seu Rei e a proteger o que restou dos Transmutalmas. Pelo amargo sangue de Lesmos, eles juravam. O Rei devorado virou semente de vingança: a sua morte não encerrou nada, apenas mudou de forma. É a marca mais funda desta cosmologia: o pai cuja ausência pesa mais do que jamais pesou a presença.
Há ainda a filha. Astella é a primogênita ilegítima de Lesmos, a filha mais velha e indesejada do Rei, herdeira de direito do trono que ele nunca quis lhe dar. Banida por ele em vida, ela é a única parente de sangue que sobreviveu ao seu assassinato: depois que a Hidra Yhva matou a esposa legítima de Lesmos, restou só a bastarda. Astella jurou destruir os Deuses Luminosos e restaurar Nahrram, e não houve década de guerra que apagasse esse juramento. O ódio do pai por ela e o ódio dela pelos irmãos-deuses são a mesma chama, herdada pela mesma linhagem.
Os fiéis o chamam de Rei Esquecido, e o epíteto é exato, porque esquecer Lesmos foi o primeiro ato de governo dos Deuses. Renomearam o reino dele de Gloomhaven, o "Refúgio Sombrio", por zombaria; amaldiçoaram o povo dele de Inflamados, os Desperdícios Pestilentos. Apagar o nome do pai era apagar o crime. Mas o nome ficou: nos Sussurros da Serpentaria, no sangue do Lago Sombrio, na boca de Lorian Cittagon, que prega que os Deuses não passam de crianças arrogantes que devoraram o próprio pai em busca de poder. Lesmos é lembrado como acusação, nunca adorado. E enquanto houver um filho dele, divino ou bastardo, andando sobre os galhos, o Rei Esquecido nunca terá morrido inteiro.
Quanto ao que Lesmos era de fato, antes da fome, antes da faca, o corpus guarda silêncio, e é justo que guarde. Restaram-nos o título, o sangue e o crime. O homem por trás do Rei ficou no fundo do Lago Sombrio, com as Umbracronos que tanto cobiçou, esperando, talvez, por alguém que ouse pronunciar o seu nome sem desprezo.