
Setíferus é o Deus do Outono, e o Outono, nesta cosmologia, é a estação em que o tempo para.
Setíferus é o Deus do Outono, e o Outono, nesta cosmologia, é a estação em que o tempo para. De todos os Deuses Luminosos, é ele o que menos reinou e o que mais marcou: um deus que governou a queda das folhas e foi ele próprio derrubado, expulso pelos irmãos para morrer no fundo do mundo. Os espinhosos o veneram como o Deus Espinhoso, o Deus dos Espinhos, e o veneram pelo que ele lhes deu com o último suspiro, não pelo que possuiu.
A sua ruína veio das mãos da própria família. Quando a Doença das Estações mergulhou os Deuses Luminosos num frenesi de loucura, foram os irmãos enlouquecidos que o expulsaram do galho luminoso e o condenaram ao abismo sombrio das raízes, lançado, sozinho, à base mesma da Árvore Espiritual. Soria só percebeu a ausência dele depois de restaurar a razão dos outros, e a conclusão foi devastadora: se os Deuses adoeceram sem sequer estar perto das raízes, então Setíferus, atirado diretamente sobre elas, estava perdido sem remédio. Os Luminosos haviam matado o próprio irmão com as próprias mãos, no auge da insanidade, e nada, nem mesmo a esperança de Soria, poderia trazê-lo de volta. O luto e o arrependimento os consumiram. Mas o pior já estava feito.
E é aqui que Setíferus deixa de ser apenas uma vítima e se torna um deus. Nos abismos, com o último fôlego, ele não amaldiçoou os irmãos que o mataram: usou a derradeira gota de poder para proteger as suas amadas criações da doença. Fez isso por meio de um beijo, dado à única Ser Espiritual proveniente dele que saberia o seu nome. Daquele beijo nasceu uma dádiva: qualquer Ser Espiritual Espinhoso que ela tocasse se tornaria imune e seria instantaneamente curado da Doença das Estações. A mulher que recebeu o beijo dedicou a vida a curar os seus semelhantes e a manter viva a memória de Setíferus no coração de todos, e por isso passou a ser conhecida como a Mãe Espinhosa, a Puro Sangue de Espinho, matriarca das Coroas Vermelhas de Briarwatch. O legado de um deus moribundo virou a salvação de um povo inteiro.
O último desejo de Setíferus ecoa até hoje na boca dos seus fiéis, e tem uma só palavra: Liberdade. Ele almejava que o seu povo pudesse viver uma vida tão digna quanto a dos outros operários da Árvore. Os espinhosos, porém, foram castigados junto com ele, condenados a um destino que não mereciam. Foi a Mãe Espinhosa quem cumpriu esse desejo: carregando o legado dele no peito, guiou o Povo dos Espinhos para fora do Abismo das Raízes, atravessou os labirintos obscuros, desafiou todos os perigos, e levou-os a contemplar pela primeira vez os galhos da superfície e a respirar o ar espiritual, livres das amarras. Mas a liberdade que Setíferus sonhou virou, na superfície, sede de vingança: foi a mesma Mãe Espinhosa, abençoada pelo beijo dele, quem cravou um espinho no peito de Soria e iniciou a Guerra das Estações. A bondade do deus do Outono e o ódio do povo dele brotam, ambos, da mesma raiz.
A morte de Setíferus virou uma estação permanente. Depois do Massacre Invernal, quando a Árvore inteira adentrou a Era de Ansenfall, dizia-se que o tempo estagnara, como se estivesse preso na estação representada por Setíferus, o Outono. A própria palavra Ansenfall, os Anos no Outono, é, em última instância, o nome do luto por ele: um mundo que parou de envelhecer, congelado na queda das folhas de um deus que os irmãos atiraram às raízes. E o sangue dele segue vivo nos que o herdaram. Diz-se que, nos espinhosos mais furiosos, os abismos da Miasma, o subterrâneo e até o próprio sangue de Setíferus que corre em suas veias respondem ao ódio, ao terror e ao medo, como se o deus morto ainda batesse, devagar, no fundo de cada um dos seus filhos.
Há quem o tema mesmo agora. "Setíferus não ficará feliz em saber disso", murmuram os seus fiéis diante de uma afronta, como se o Deus Espinhoso ainda observasse do abismo, paciente, à espera. E há quem precise tomar o lugar dele e descubra que não há lugar a tomar. Setíferus deitou raízes fundas demais para ser substituído. Ele é o deus que perdeu tudo e, perdendo, deu tudo: a estação que não passa, o beijo que cura, a liberdade que ainda não chegou inteira. O Outono de Ansenfall é ele, e enquanto durar o Outono, Setíferus não terá morrido de vez.