
Solarium é o Deus Luminoso do Sol do Verão, também invocado como o Deus do Sol Verdadeiro, o senhor do Verão entre os Filhos do Rei que devoraram Lesmos e ascenderam como Deuses Luminosos.
Solarium é o Deus Luminoso do Sol do Verão, também invocado como o Deus do Sol Verdadeiro, o senhor do Verão entre os Filhos do Rei que devoraram Lesmos e ascenderam como Deuses Luminosos. No reparto das quatro estações que sustentam o equilíbrio da Árvore Espiritual, coube a ele o calor; e o calor, na cosmologia de Ansenfall, é a estação da memória e do consolo tardio. Solarium comanda os Espíritos do Verão, as Almas Estivais, aqueles que chegam quando já não há mais o que salvar e fazem da derrota um lamento que não deixa os mortos partirem sem ternura.
O corpus o fixa, sobretudo, num único instante, e é um instante de chegar tarde. Durante o Massacre Invernal, quando a Mãe Espinhosa lançou os espinhosos sobre os Nascidos do Inverno adormecidos e ordenou a execução de todos sem exceção, foi Solarium quem viu a irmã cair: enviou reforços para as muralhas assim que testemunhou Freja desfalecer no galho celestial. Mas o Verão não chega na hora do Inverno. As suas tropas só alcançariam o campo ao amanhecer, e foi tarde demais. As Almas Estivais não vieram para combater: vieram para encontrar corpos e desolação. Percorreram em silêncio os campos cobertos de mortos, acariciaram as faces pálidas dos guerreiros, depositaram flores sobre os caídos e entoaram um cântico de dor que ecoou pelos campos como um lamento por toda a Árvore. O sol poente banhou aquilo com os últimos raios dourados, e o dia ficou marcado para sempre. É essa a estampa de Solarium: o deus que, mesmo divino, mesmo radiante, não consegue correr mais depressa que a morte.
Mas seria injusto reduzi-lo ao atraso, porque o Sol do Verão também é o deus que vigia e cobra. Os seus fiéis temem o olhar solar de Solarium quase tanto quanto reverenciam o seu calor. Quem peca diante dele sabe que pode ser caçado pela própria luz: diz-se de servos que, depois de erros graves, julgaram prudente se afastar temporariamente para evitar que Solarium enviasse memórias solares em sua caçada, pois ele os buscaria com memórias douradas, a luz que persegue e revela o que se quis esconder. O Verão de Solarium aquece os justos e incinera os culpados; o seu sol aquece e julga: nenhuma sombra escapa ao seu olhar.
Da sua linhagem e da sua corte, o corpus guarda mais silêncios do que certezas, e é justo preservá-los. Há a Duquesa Solaris, a Soberana dos Céus Incandescentes, ligada a Solarium como consorte ou filha, e o corpus não fixa qual; a dúvida fica de pé. Há, mais ao fundo, o enigma do Sol do Amanhecer de Thrandel, a dinastia perdida de onde veio a Princesa Serenidade, e a pergunta, nunca respondida, de como esse Sol nascente se relaciona com o Sol do Verão de Solarium: dois sóis na mesma cosmologia, um que amanhece e um que arde no auge do dia, sem que se saiba se são parentes, reflexos ou estranhos. São lacunas que o panteão de Ansenfall não preenche, e que pertencem ao mistério tanto quanto pertencem à história.
No fim, Solarium é o deus do calor que chega depois do frio, e talvez seja esse o seu papel exato na ruína de Ansenfall. Quando a Era Sombria desabou e os céus perderam a cor, restaram poucos gestos de ternura sob aquele manto monocromático, e quase todos foram das Almas Estivais: as flores sobre os mortos, os cânticos sobre as cinzas, o último consolo dourado antes da noite. O Verão de Solarium chegou tarde para o Inverno e para o Outono. Mas foi o que, entre os corpos, ainda soube ajoelhar-se e chorar. Num mundo que parou na estação de Setíferus e congelou na de Freja, Solarium é a promessa teimosa de que o sol, um dia, há de voltar a nascer, mesmo que, por enquanto, ele só chegue a tempo de iluminar o que já se perdeu.