
Soria é a Deusa Luminosa da Esperança, e a sua história é a história de uma esperança que pode morrer, e morreu.
Soria é a Deusa Luminosa da Esperança, e a sua história é a história de uma esperança que pode morrer, e morreu. Das seis crianças que devoraram o pai Lesmos e ascenderam ao plano celestial, foi ela quem mais tentou consertar o mundo que ajudaram a quebrar, e foi ela quem pagou o preço mais alto por tentar. Os fiéis a chamam também de Princesa da Esperança; o corpus a chama, com mais peso, da Deusa cuja queda apagou um ideal considerado inabalável.
Quando a Doença das Estações, a doença do sofrimento, alcançou os galhos mais baixos da Árvore Espiritual e mergulhou os próprios Deuses Luminosos numa loucura gradual, distorcendo-os e afastando-os de seu propósito sagrado, havia uma única Deusa fora do alcance do contágio. Soria estava no Mundo Externo, apoiando os Juízes, e por sorte não adoeceu. Conseguiu regressar à Árvore com a sanidade intacta e o entendimento completo da catástrofe, e assumiu sozinha a responsabilidade de trazer de volta a cura e a estabilidade: empenhou-se em purificar os ecos contaminados e em restaurar a razão dos irmãos enlouquecidos, na esperança de que, juntos, retomassem a missão de salvar a Árvore do colapso. Foi ela quem tocou Anshatar e expulsou a morte do ventre da irmã. Foi ela quem devolveu a consciência aos Deuses. Muitos, porém, acreditavam que Soria havia voltado tarde demais.
E haviam voltado mesmo. Ao restaurar a sanidade dos irmãos, Soria percebeu a ausência de um deles, Setíferus, o Deus Espinhoso. No frenesi da doença, os irmãos enlouquecidos o haviam expulsado do galho luminoso e o haviam condenado ao abismo sombrio das raízes. A conclusão era terrível: se eles adoeceram sem sequer estar perto das raízes, Setíferus, lançado direto na base delas, estava perdido. Os Deuses Luminosos haviam atirado o próprio irmão à morte com as próprias mãos. O luto e o arrependimento os consumiram, e nem mesmo a esperança de Soria foi capaz de desfazer aquilo, ou de extinguir a fonte da Doença Espiritual. Restou-lhe redobrar os esforços, porque, se falhasse, a morte de Setíferus teria sido em vão e a própria existência da Árvore estaria em jogo.
A morte de Soria nasceu de uma culpa que ela carregava com dignidade. Quando o Povo dos Espinhos, os órfãos de Setíferus, curados pelo beijo da Mãe Espinhosa, saiu por conta própria do Abismo das Raízes e marchou enfurecido contra os galhos da superfície, foi Soria a primeira a recebê-los. Movida pela culpa e pelo desejo de reparar os erros do passado, ela tomou a iniciativa de procurar a líder daquele povo e esclarecer toda a injustiça que haviam sofrido. Mas a Mãe Espinhosa não se comoveu: aqueles "Deuses" que Soria dizia conhecer, ela própria incluída, jamais tentaram ajudar: os espinhosos saíram do inferno abissal sozinhos, sem nenhum deus. Cada palavra de Soria passou a soar como insulto, como desprezo pela dor enfrentada.
E quando a Deusa da Esperança baixou a guarda, acreditando ter, enfim, construído um entendimento, viu um espinho grosso e afiado atravessar-lhe o peito e arrancar-lhe a alma do corpo. A traição e a dor nos olhos de Soria foram ofuscadas pelo desafio e pela ira estampados no rosto da Mãe Espinhosa. A Esperança jazeu despedaçada na superfície, banhada em Sangue Espiritual; o brilho outrora radiante da Deusa se apagou, e o corpo inerte virou o símbolo da queda de um ideal que se julgava inabalável. Aquilo foi apenas o começo da revolta dos Espinhos, e a única morte de um Deus Luminoso que o corpus narra diante de nossos olhos. A irmã que ressuscitava os outros foi a que não voltou.
A ausência de Soria é uma das forças mais pesadas de toda a Era de Ansenfall. Depois do Massacre Invernal, quando os céus perderam a cor e a fome se tornou constante, dizia-se que a esperança parecia realmente ter morrido com Soria, como se o sentimento e a Deusa fossem uma coisa só, e tivessem sangrado juntos no mesmo espinho. E, ainda assim, ela insiste em retornar pelas frestas. Quando os Trilhadonnos romperam pela primeira vez a Muralha Prateada de Garador, os que ali estavam juraram que era como se Soria estivesse presente, como se a Deusa assassinada vivesse de novo no exato instante em que a coragem trincava a prata do desespero. É esse o lugar de Soria na cosmologia: não a esperança que vence, mas a esperança que se recusa a desaparecer por completo, mesmo morta, mesmo despedaçada, mesmo quando todo o resto já desistiu.