
O dourado das armaduras era o orgulho; as lâminas de ouro indestrutíveis, a fidelidade.
O dourado das armaduras era o orgulho; as lâminas de ouro indestrutíveis, a fidelidade.
"Eles eram os Radiantes, aqueles que controlavam a entrada e a saída dos aliados em Gloomhaven. Um povo cujo dourado das armaduras simbolizava o orgulho e cujas lâminas de ouro indestrutíveis representavam a fidelidade."
Os Radiantes são "os abençoados pela ordem de Garador", a nobreza dourada de Gloomhaven, o rosto mais luminoso, mais admirado e mais invejado de toda a Aliança Luminosa. Não são uma raça única, mas um guarda-chuva de linhagens aparentadas pela mesma graça: hospedeiras do Sangue Puro da Ordem, criaturas em cujo ser a essência do Deus da Ordem permanece viva, a ponto de sua mera presença ser capaz de acalmar pequenas agitações e até de apaziguar conflitos. Nascem para o ouro, atraídos por tudo que reluz e brilha, aprendem com facilidade assombrosa, têm sentidos aguçados e carregam uma serenidade que desarma os ânimos ao seu redor.
Mas que ninguém confunda o brilho com a brandura. O mesmo dom que os douraria semeia neles o seu reverso. A vaidade que a ascensão lhes confere, e a tentação de transformar a diplomacia em domínio, andam sempre a um passo atrás do esplendor. Porque eis a verdade trágica de toda a linhagem, a espinha que sustenta cada um de seus rostos: o ouro é a bênção; a prata é a queda. Ser Radiante é ser a coisa mais cobiçada de Gloomhaven justamente porque é a mais precariamente sustentada, cada um deles está a um único mau dia de desbotar em desespero.
Os Radiantes nascem do encontro de duas divindades luminosas. Quando Garador ergueu a muralha intransponível que encapsulou Gloomhaven, isolando o Povo dos Espinhos do resto da Árvore Espiritual, foi preciso uma força capaz de guardar aquele limiar. Anshatar, a Deusa da Primavera dos Galhos Altos, contente com os atos do irmão, se tornou íntima dele; e, em segredo, "uniram suas energias para criar guerreiros revolucionários, que não apenas lidariam com os infectados, mas também não deixariam nada sair, nem entrar no galho sem permissão. Esses guerreiros majestosos seriam batizados de Radiantes."
Assim nasceu a ordem dourada: a fusão da força vital de Anshatar com a divindade-da-ordem de Garador, posta de sentinela sobre os portões do Refúgio Sombrio. Eram os porteiros do ouro muito antes de a prata existir, aqueles que controlavam quem entrava e quem saía, guardiões do limiar cujas armaduras douradas anunciavam o orgulho e cujas lâminas indestrutíveis juravam fidelidade. Nisto reside a ironia mais desconfortável de sua origem, e o corpus não a esconde: a Mãe Suprema ajudou a forjar a própria muralha que aprisionou seus filhos da primavera junto aos espinhos. Os filhos de uma deusa montam guarda à prisão de seus próprios irmãos. A cosmologia que os gerou é fractal e cruel.
O motor trágico da linhagem se revelou no dia em que seu deus os abandonou. Quando a Aliança Luminosa, humilhada, se prostrou diante das Estrelas para implorar pela salvação da Árvore moribunda, Garador se recusou a compartilhar a vergonha. Tomado por orgulho ferido e desespero, virou as costas para seu povo, para Anshatar e para os irmãos, e escolheu o exílio.
O povo de Garador foi o primeiro a sentir o peso de sua partida. "Quando Garador abandonou a Árvore Espiritual, as muralhas douradas se tornaram prateadas, e a maioria dos Radiantes que nelas residiam se viram perdidos em meio à desolação. O dourado de suas armaduras, assim como o ouro resplandecente de suas almas e espadas, desbotou em um tom cinza-prateado e morto. Um tom sem vida e desprovido de esperança." Os antigos Radiantes passaram a vagar como espectros do que um dia foram, as consciências dominadas pelo único propósito vazio que lhes restara, agora totalmente deturpado: impedir a entrada e a saída de qualquer um nas muralhas. O esplendor dourado da proteção divina coalhou num lembrete sinistro da traição e do abandono.
Daí descendem os Prateados: o ouro de que aqueles espectros decaíram. Ouro-devoção → prata-desespero é o eixo que liga todo este ramo do panteão. Ser amado pela Ordem e ser condenado por ela, descobriram os Radiantes, são o mesmo dom visto de dois lados.
Nem todo ouro consentiu em cair. Pouco antes de os Prateados serem formados, vinte e sete grandes batalhões dos que guardavam as muralhas haviam sido enviados a uma cruzada no Lago Sombrio, para garantir que ninguém além dos Radiantes tivesse acesso à área. Esse exército era liderado pela Imperatriz Ourabrasa, uma mulher que veio diretamente do caule da Árvore, a pedido de Garador, para servir como Donzela do Destino e General da Terceira Divisão de Radiantes. Quando o Deus da Ordem desertou e a prata consumiu a maioria de seu povo, foi ela quem se recusou a abandonar os que ele deixou.
Com o destino dos sobreviventes nas mãos, Ourabrasa ergueu um forte dourado impenetrável, onde só entravam Radiantes e "aqueles dignos de vestir o ouro." Batizado de Ghanliew, o forte logo virou uma grande cidade e o maior porto-seguro dos vaidosos espíritos dourados. A Mãe Espinhosa e Astella se mobilizaram contra a ascensão, cercando Ghanliew com exércitos gigantescos; mas, após uma década de guerra, as Donzelas do Destino Abissais foram destroçadas e humilhadas pela estratégia invencível da Imperatriz. E ela não parou aí. Tomou então a atitude que mudaria a história da Linha de Frente Luminosa para sempre: modificou internamente as essências e os corpos dos Radiantes de Ghanliew, criando uma legião de super-soldados de armaduras formadas a partir dos próprios corpos, exoesqueletos que se reparam em velocidade absurda e que permanecem imunes ao prateamento. Foi a resposta da Ordem ao abandono de seu próprio deus: quando o ouro vacilou, seus filhos se recusaram a morrer e se refizeram na muralha viva que o mantém de pé.
A graça radiante não fala numa só voz. Um decreto reorganizou a linhagem, "agora, cada raça dos Radiantes vai ter sua própria Dama do Destino", e cada rosto do mesmo ouro carrega seu próprio dom e sua própria condenação:
A linha de frente do ouro contra o abismo passa exatamente pela divisão de suas Donzelas. As que guardam os Radiantes são as Donzelas Luminosas, a Imperatriz Ourabrasa e a Rainha Arietta, em oposição às Donzelas Abissais, a Mãe Espinhosa e Astella, aquelas mesmas que cercaram Ghanliew por uma década e foram derrotadas. O grande baluarte da linhagem, contudo, é uma figura singular: Ourabrasa, de longe a mais inteligente entre as Donzelas do Destino, exerce o papel sem oficialmente carregar o título, e, por isso, não está presa aos dogmas e tradições impostos às que o portam. É ela quem provou, com atos, que as herdeiras das raízes não eram "meras marionetes de boa aparência da Árvore"; é a otimista que, ao contrário da maioria das Donzelas, jamais desistiu de Gloomhaven, acreditando genuinamente que o reino sombrio verá a luz mais uma vez.
Ninguém em Gloomhaven é olhado com tanta inveja, nem com tanta admiração. As Esfinges são bem-vistas até por quem odeia uma Esfinge em particular; as Valquírias Douradas lotam os coliseus da cidade dourada e enchem de esperança o coração dos pequenos luminosos; o próprio Solarium, o Deus do Sol do Verão, se ajoelhou diante das Mães Jumeaux. Mas o ouro também desperta ódios cosmológicos. Astella, a Monarca Banida, "tem uma relação péssima com tudo relacionado aos Deuses Luminosos, repudiando especialmente os Radiantes"; e há uma força diante da qual nem o ouro mais firme se ergue: quando a Princesa Serenidade passa perto das Muralhas de Garador, os próprios Radiantes tendem a se esconder, prova de que a Praga da Paz opera fora das categorias que o panteão instalou.
Os Radiantes são a guarda dourada da Aliança Luminosa: a ordem nascida da vontade unida de Anshatar e Garador, posta a vigiar o limiar de Gloomhaven, e hoje sustentada pela teimosia de Ourabrasa em Ghanliew. São o polo luminoso erguido contra os espinhos do Outono e contra o abismo das Donzelas decaídas, e, ao mesmo tempo, o emblema mais nu da fragilidade que assombra toda a Árvore. Cada face de sua bênção, das Esfinges à Princesa adormecida, está a um mau dia de virar um Prateado. Pois esta é a lição que a ordem dourada inscreve no coração do reino: no panteão de Garador, ser amado pela Ordem e ser condenado por ela são o mesmo dom, visto de dois lados.