
Há uma figura translúcida e vermelha que aparece onde alguém um dia odiou o bastante para deixar parte de si para trás.
"Nunca conseguirás esconder suas verdadeiras vontades... não para tua Memória Sangrenta."
Há uma figura translúcida e vermelha que aparece onde alguém um dia odiou o bastante para deixar parte de si para trás. Ela tem a forma de uma besta, ou algo perto disso: uma silhueta enlouquecida envolta numa aura que arde como fogo, sustentada no ar pela única coisa que a manteve viva depois que o espírito que a sentiu seguiu adiante. Toda Memória veste a cor da emoção que a gerou, e a dela é vermelha, a cor do rancor que não se apaga e do sangue que ainda se quer derramar. Entre as cinco que a Mente Espiritual de Gloomhaven sabe gerar, esta carrega o fardo mais pesado de todos: o desejo incontrolável de vingança.
Das memórias, a Sangrenta é a mais fácil de criar e a mais difícil de conter. Quase nunca se faz por vontade lúcida. Ela irrompe, como uma explosão de ódio vinda dos recantos mais fundos da alma, porque o ódio dorme em todo espírito e só espera para ser despertado. Forjada com um propósito único, e ele é perverso, a Sangrenta existe para massacrar quem feriu o seu dono ou para saciar uma sede de sangue que não tem fundo. Sua simples existência basta para semear destruição em quem cruzar o seu caminho. Os Deuses Luminosos criaram os espíritos capazes de senti-la, e nem mesmo eles encontraram como fazê-la dormir.
A força por trás da Sangrenta tem um nome que ninguém gosta de pronunciar: o ódio em estado puro, que o cânone trata como a emoção mais democrática do reino. Ele existe em cada espírito, abençoado ou maldito, nobre ou vil, à espera apenas de uma dor grande o suficiente para acordá-lo. As outras cores nascem de sentimentos raros. A amarela pede um amor digno do Sol, a azul exige uma proteção quase impossível, a roxa cobra um remorso que poucos conseguem sentir de verdade. A vermelha não pede nada disso. Basta que se sofra, e que se queira fazer sofrer de volta.
Quando essa vontade transborda, ela cobre o corpo do espírito com uma aura malévola e vermelha como fogo, e o que sobra ali já não raciocina. As Sangrentas se comportam como bestas enlouquecidas, instrumentos cegos da fúria de seus donos, e buscam uma única coisa com uma constância que assusta. O cânone abre, porém, uma distinção que vale a pena guardar. Uma Sangrenta pode ser evocada pela simples malícia de um espírito que apenas deseja o mal, e essas existem. Elas nunca alcançam, contudo, a potência das que nascem do ódio verdadeiro, daquele que foi merecido por uma ferida real. A malícia produz uma cópia fraca. Só a dor produz o original. É por isso que a Sangrenta diz tudo a respeito de quem a criou: ela é a confissão que o espírito não dá em voz alta, a prova de que existe uma vontade que ele nunca conseguiu, de fato, esconder.
Cada cor da Mente Espiritual aponta para uma raça que a semeou no mundo. As amarelas vieram das Almas Estivais, as azuis dos Luas Crepusculares, as roxas dos arautos da morte. A vermelha guarda um silêncio que o cânone nunca quebrou. Nenhum povo foi nomeado como o seu fundador, e talvez isso diga algo sobre a própria natureza do ódio, que não precisa de uma origem para existir porque já mora em toda parte.
Ainda assim, há rastros, e eles levam fundo. Um deles desce até as raízes, onde repousa o Povo dos Espinhos, o primeiro ser criado no Mundo Espiritual, expulso ao abismo e esquecido por séculos. Eles carregam um rancor milenar e o desejo de uma vingança já podre e fria, e brilham num vermelho discreto que se faz de aura ao redor do corpo, a mesma cor que toda Sangrenta acende quando o ódio a domina. O outro rastro afunda no Lago Sombrio, onde foi lançado o corpo de Lesmos, o Rei devorado pelos próprios filhos. O amargo sangue do Rei, impregnado de ódio, não se dissolveu na água. Dele brotaram seres gerados por pura fúria, jurados a trazer o verdadeiro horror aos assassinos de seu soberano. Dois rastros, e ambos vermelhos, e ambos feitos da mesma matéria. O cânone os mostra e não os fecha. Quem semeou a primeira Sangrenta segue sem nome, e o reino parece preferir assim, porque uma fome que ninguém batizou é uma fome que pode ter vindo de qualquer um de nós.
É essa fúria que a cena registra. Sob uma lua de sangue pendurada num céu sem saída, uma figura imensa e translúcida se ergue na névoa vermelha, tomada de chifres e de cólera, grande demais para o corpo que um dia a sentiu. Aquela fúria é o próprio ódio que sobrou quando o espírito partiu, e cresceu até o tamanho de um deus pequeno e enfurecido, vasto demais para se prender a um único inimigo. Mais abaixo, uma grande mão de garras sobe do fundo em direção ao centro, como se a raiva tentasse alcançar com as próprias unhas aquilo que veio destruir, e o gesto lembra outra subida: a do primeiro povo que escalou o abismo trazendo a vingança nas mãos. Lâminas curvas flutuam dos dois lados, armas sem punho que ninguém empunha porque não precisam de braço. Tudo afoga no mesmo vermelho. A imagem é a Sangrenta cumprindo a única coisa que sabe fazer, que é chegar.
E ela já chegou antes, em grande escala. Foi durante o Ataque ao Mundo da Superfície que as Sangrentas se revelaram ao reino, brotando da vingança implacável do Povo dos Espinhos quando ele subiu para cobrar dos que o haviam abandonado. Inúmeras delas irromperam ao mesmo tempo, em todos os cantos, e responderam por boa parte do caos e da ruína daquele dia. O cânone, porém, guarda uma ressalva curiosa. No Massacre Invernal, quando o exército da Lua Glacial dormia e foi exterminado até a última criança, não foram as vermelhas que pesaram na balança. Quem decidiu aquela noite foram as Aprisionadas, as roxas, empunhadas por alguns Espinhosos. A Sangrenta é o ódio que explode à luz do dia. Houve dores, naquela guerra, fundas demais até para ela.
No fim, a Sangrenta é a mais honesta das cinco cores, e é exatamente por isso que ela aterroriza. As outras carregam virtudes que um espírito gostaria de exibir, a coragem do Sol, a guarda da Lua, o luto de quem se arrepende. A vermelha carrega aquilo que todos preferiam manter trancado, e a expõe ao mundo inteiro sem pedir licença. Ela não inventa o ódio de ninguém. Apenas o retira do fundo onde dormia e lhe dá garras, chifres e uma aura de fogo, devolvendo ao espírito, ampliada e visível, a vontade que ele jurou não ter. Quem cria uma Sangrenta descobre que nunca esteve sozinho com a própria fúria. Ela estava ali o tempo todo, à espera, e bastou uma ferida funda para que se levantasse com a forma de tudo aquilo que ele não teve coragem de admitir. É a memória que sobrevive ao seu dono porque o seu dono nunca a deixou ir de verdade, e que volta, noite após noite vermelha, para lembrá-lo de que há desejos que o tempo não dilui e que a alma não consegue disfarçar.
"Nunca conseguirás esconder suas verdadeiras vontades... não para tua Memória Sangrenta."